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Fotografei meu Avô

Forno a lenha, frango caipira, cachorros, gatos e galinhas, o cheiro de pão caseiro, e de café. O barulho do assoalho do chão de madeira, simplicidade, segurança, frio. São características, sentidos e sentimentos gerados na casa do meu avô paterno no Paraná. Na última viagem fiquei observando cada passo desse senhor de 78 anos, ele tinha acabado de sair do hospital, lembro do medo que senti quando me disseram que tinham o encontrado caído no chão e que tinha perdido muito sangue, depois desse susto, ele se recuperou e quando fomos o visitar em Fevereiro de 2020, eu fotografei meu avô, ainda forte em suas tarefas diárias e cozinhando para as visitas. 

Com apenas 4 anos eu me mudei do Paraná para São Paulo, e desde então vivo a saudade do meu avô. Sempre que podíamos meus pais viajavam para o Paraná e eu conseguia passar um tempo com ele e,  quando ainda era pequena ele vinha me visitar, tê-lo por perto sempre foi especial, me sinto segura, como se estivesse me reconectando com parte de mim que eu desconheço e que me faz falta. Com o tempo as nossas visitas e as visitas dele foram diminuindo. Hoje ele quase não sai de casa. 

Fotografei meu avô e senti que devia isso a ele. Ele sempre foi a referencia da fotografia na nossa família, é na casa dele que ficam aqueles alguns antigos de família, era ele quem tinha a câmera para nos fotografar, tirava foto de gado, de cerca, de gente, de tudo que podia, e está tudo lá guardado em uma caixa antiga em cima do guarda-roupas. Nessa última visita analisei as fotos dele, e me surpreendi com algumas boas fotos e o tanto de amigo dele que já partiu dessa vida. Deve ser solitário envelhecer. 

Meu avô acorda com as galinhas literalmente, almoça 11:30, dorme muito cedo, e claro o horário do baile de domingo a tarde é sagrado, de vez enquanto ele toma banho e troca a camisa, agora tem dente de ouro e uma pele de dar inveja. Eu nunca vi meu avô nervoso e estressado, talvez seja por isso que seja tão jovem e forte. Não reclama de dor e nunca o ouvi falando sobre doença, ele sempre tem um bom causo pra contar enquanto toma o café mais doce do mundo. 

A casa dele para uma pessoa organizada é de dar "parrura", a família já se reuniu para organizar e reformar, ele não gosta. Ele tem o jeito próprio de organizar as coisas, e um jeito peculiar de viver, dizem que minha avó era muito organizada e que era ela quem limpava e arrumava tudo, de verdade eu não consigo entender o jeito do meu avô viver, mas nem preciso, por que eu amo tanto aquele jeito dele. Amo tanto que quis deixar tudo registrado, dos vidros quebrados ao jeitão de fazer a comida no forno que ele mesmo construiu. 

Gosto da simplicidade, da risada, das gracinhas, do jeito que ele chama “veinha”. 

Sinto falta de ter mais tempo com ele, de morar mais perto, de ver minha filha correndo no quintal dele e brincando com os tomates da fruteira, ou correndo atrás dos pintinhos. Essas fotos apaziguam um pouco da saudade, eu posso até sentir o cheiro das coisas, e eu sei que com o passar dos anos, elas serão ainda mais valiosas. 

Ainda bem que fotografei meu avô a tempo! 

E você tem alguém que queira guardar dentro de uma foto? Pra ter mais perto?  Não perca a oportunidade de fazer isso, de registrar a rotina, os detalhes, o sorriso, o tempo passa depressa, na velocidade que  nossos filhos crescem nossos avós vão envelhecendo. 

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